Transporte não urgente de doentes no SNS: quem tem direito a ir de graça a consultas e tratamentos, como pedir ao médico e onde reclamar.
São sete e meia de uma terça-feira e a carta do hospital está presa ao frigorífico com um íman: consulta às nove, a quarenta quilómetros de casa. A mãe não conduz. O filho voltou a pedir a manhã no trabalho, e na semana seguinte há outra marcação, e outra a seguir.
É natural pensar que a ambulância é só para emergências. Não é. O SNS tem um transporte para consultas e tratamentos, e para muitos doentes é gratuito. Raramente alguém o oferece. Tem de ser pedido, à pessoa certa e no momento certo.
O que é o transporte não urgente
Chama-se transporte não urgente de doentes. Serve para ir a consultas, internamentos, exames, tratamentos e cirurgias de ambulatório (operações em que se volta a casa no mesmo dia). Serve também para regressar a casa depois de uma alta do internamento ou da urgência, explica a Entidade Reguladora da Saúde (ERS). Faz-se de ambulância ou num veículo dedicado ao transporte de doentes, muitas vezes partilhado.
As regras estão numa portaria de 2012, alterada várias vezes desde então. Não é um serviço marginal: em 2025, o SNS registou mais de quatro milhões destes transportes, e cerca de metade foi feita por empresas privadas, segundo o Observador. Em outubro, essas empresas ameaçaram parar se ficassem de fora dos apoios do Governo contra a subida dos combustíveis. Três dias depois, o Governo anunciou que as incluía. A lei prevê este transporte há catorze anos. A informação, essa, ainda não chegou a muitas salas de espera.
Quem não paga: dois caminhos
Primeiro caminho: tratamentos prolongados. Quem precisa de cuidados de forma prolongada e continuada tem o transporte pago pelo SNS, independentemente dos rendimentos, segundo a ERS. Estão incluídos, por exemplo:
- doentes com insuficiência renal crónica (rins que deixaram de funcionar bem de forma permanente) e quem faz diálise em casa;
- doentes oncológicos e transplantados;
- reabilitação ao longo da vida, com incapacidade de 60% ou mais por deficiência motora;
- cuidados paliativos (cuidados que aliviam o sofrimento na doença grave) prestados pelas equipas da rede nacional;
- reabilitação depois de uma situação incapacitante, até 120 dias.
Nestes casos, a necessidade de transporte é reavaliada a cada 30 dias e fica registada no processo clínico.
Segundo caminho: rendimentos baixos e uma situação clínica que o justifique. As duas condições têm de existir ao mesmo tempo. Ter rendimentos baixos, sozinho, não chega, sublinha a ERS.
Em 2026, há insuficiência económica quando o rendimento médio mensal de cada pessoa do agregado não passa de 805,70 euros. Conta como agregado quem está na mesma declaração de IRS. Os desempregados inscritos no centro de emprego, o cônjuge e os dependentes também estão abrangidos.
A situação clínica pode ser uma incapacidade de 60% ou mais, provada com o atestado médico de incapacidade multiuso. Pode ser também uma condição incapacitante causada por uma das doenças que a portaria enumera, como a doença oncológica ou a insuficiência renal crónica. O doente está acamado, precisa de isolamento, anda de cadeira de rodas ou não consegue deslocar-se sozinho na rua. Nesse caso, vai de ambulância. Crianças com doença que limita ou ameaça a vida também estão incluídas, de acordo com a portaria.
Como pedir, passo a passo
- Pedir ao médico do SNS. É o médico que prescreve o transporte e confirma a condição clínica, no momento da prescrição. O melhor é falar disso logo na marcação, e não na véspera.
- Levar as provas. O atestado multiuso, se a incapacidade for o motivo. Para a insuficiência económica, vale a pena perguntar no centro de saúde como fica registada.
- Saber quem marca a viagem. Quem requisita o transporte é o hospital ou o centro de saúde, não o doente. Peça o contacto do serviço responsável pela requisição para confirmar a hora de recolha.
- Contar com transporte partilhado. O veículo junta doentes com percurso e horários parecidos, e pode desviar-se até 10 km ou 30 minutos, explica a ERS. Ir sozinho de ambulância exige uma justificação médica.
- Na fisioterapia, ter atenção à data. O transporte para a fisiatria (reabilitação física) está isento até 120 dias a contar da primeira prescrição. O prolongamento é possível, se o médico o justificar e o serviço o aprovar.
Acompanhante, ADSE e outras exceções
O acompanhante não vai sempre. Só é permitido para menores de 18 anos, para quem recebe o subsídio por assistência de terceira pessoa ou tem deficiência intelectual profunda, problemas cognitivos graves, surdez total ou deficiência visual acima de 80%, segundo a ERS. Nesses casos, o médico tem de confirmar a necessidade, lembra a DECO PROteste.
Quem é beneficiário da ADSE, da ADM ou de outro subsistema não tem esta isenção no SNS. Nesse caso, informe-se junto do seu subsistema. Também ficam de fora os acidentes de trabalho, as doenças profissionais e as juntas médicas.
Quem não tem direito pode marcar e pagar o transporte. Os bombeiros, a Cruz Vermelha, as instituições sociais e as empresas licenciadas fazem este serviço. A DECO PROteste aconselha a pedir orçamento por escrito, com o preço por quilómetro, a espera e o acompanhante. Peça também fatura com o NIF do doente, porque conta como despesa de saúde no IRS.
Os seus direitos, e onde reclamar
Quando os critérios estão cumpridos, o SNS assegura o custo do transporte prescrito. Está escrito no artigo 3.º da portaria. Não é um favor do serviço.
Se o transporte for recusado ou falhar, a ERS indica três passos:
- falar primeiro com o hospital ou o centro de saúde que requisita o transporte;
- se não resolver, apresentar reclamação à ERS, pelo formulário de reclamações online no site; para dúvidas, a ERS atende pelo 222 092 350;
- para problemas com a empresa ou com o veículo, contactar o INEM.
Peça que a recusa fique por escrito, com o motivo. Ajuda na reclamação.
O que preparar antes da próxima marcação
- A carta da consulta, com a data, a hora e o serviço.
- O atestado médico de incapacidade multiuso, se o tiver.
- A última declaração de IRS ou o comprovativo de inscrição no centro de emprego.
- A lista das próximas sessões de tratamento, para pedir uma prescrição única.
- O nome e o telemóvel do acompanhante, se houver direito a ele.
E uma pergunta, dita em voz alta ao médico: «Pode prescrever o transporte não urgente para esta consulta e para as seguintes?»
Quando é urgente: 112 ou SNS 24
Este transporte não serve para emergências. Se houver risco de vida ou a situação parecer grave, ligue 112, como indica o gov.pt. Se o doente piorar de repente enquanto espera pela recolha marcada, não espere: ligue 112.
Em caso de dúvida, ligue primeiro para o SNS 24, pelo 808 24 24 24. Um profissional de saúde avalia a situação e, se for uma emergência, passa a chamada ao INEM.
Na terça-feira seguinte, a carta continua no frigorífico. Ao lado está um papel com a hora da recolha e o número do serviço, para o caso de alguma coisa falhar.
Desta vez, ninguém pede a manhã.
Sobre o autor
Pedro Stark
Pedro is currently the group managing partner of the CW1 group. His focus and life mission is to rewrite healthcare so that the whole system is equitable for every citizen on the planet.

